por Giovani Baía
É incrível como ficou desinteressante o “Programa do Jô”, na Globo. Tenho esta impressão há muito tempo e percebo opinião semelhante entre pessoas com quem converso. Voltei a pensar sobre isso quando assisti ao arremedo de entrevista que foi ao ar, na noite de segunda para terça-feira, com o jornalista Artur Xexéo, cujo mote era o lançamento de seu livro “O Torcedor Acidental”, em que narra as experiências na cobertura de quatro Copas do Mundo.
O problema não está no formato talk-show importado da tevê americana. Lá, este tipo de programa ainda faz muito sucesso nos dias atuais. Na atração global, a peça fora do lugar é o próprio apresentador. Artista multi-talento e de invejável cultura, Jô Soares tem um ego maior que si próprio. E isso o impede de fazer a auto-crítica de sua atuação no programa e de detectar a existência de um ponto de fadiga.
Não obstante as recorrentes entrevistas com figuras desconhecidas, pitorescas ou bizarras, que raramente rendem bons papos, a atração tem um problema crucial: o entrevistador recebe o entrevistado para, invariavelmente, entrevistar a si próprio. Quando um intelectual ou alguma celebridade vai ao programa, Jô Soares atinge o ponto alto de seu exibicionismo. Fala dos seus livros, das peças que dirigiu, dos programas de tevê em que atuou, de seus personagens. Jô tornou-se o centro das entrevistas. Em algumas delas, chega a falar mais do que o convidado. É como se, num jogo de futebol, a bola ficasse mais fora do campo do que rolando dentro das quatro linhas.
Afora isso, Jô sofre de outro mal que acomete a maioria dos apresentadores de televisão no país, do Faustão à Marília Gabriela: a interrupção do entrevistado no momento em que o assunto começa a gerar interesse. Pode parecer que não, mas isso é percebido pela audiência e lhe causa grande incômodo.
Lembro-me de entrevistas antológicas feitas pelo Jô, não apenas na Rede Globo, mas também no SBT, quando o programa se chamava “Jô Onze e Meia”. Uma das mais brilhantes, aconteceu bem no final dos anos 80 (ou seria início dos 90?…), quando ele recebeu o então presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães. Político de poucos sorrisos e sempre com um semblante circunspecto, Jô Soares desmontou o sisudo Dr. Ulysses, como era chamado, assim que o mesmo se acomodou na poltrona: “Chamo o senhor de você ou chamo você de senhor?”, disparou. Daí em diante, quebrada a formalidade, viu-se um Ulysses Guimarães raramente conhecido na cena pública. Sorridente, contador de histórias, despojado. E sendo chamado de você do princípio ao fim.
O público conhece e reconhece a sagacidade, o humor e a inteligência de Jô Soares. Falta a ele compreender sua fronteira dentro de seu próprio programa. O estrelismo empobrece o espetáculo do diálogo, principalmente quando não se explora o convidado na sua história, nos seus valores, conceitos e comportamentos. O “Programa do Jô” bem que podia voltar a ser um encontro que tivesse a capacidade de gerar aquela sensação de “valeu a pena” no público, no entrevistado e no entrevistador. Do jeito que está, é melhor ir para a cama mais cedo a ter que escutar uma vuvuzela que só trombeteia suas histórias e vaidades.
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